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Aspas, apóstrofos e plicas

Aspas, apóstrofos e plicas: os sinais mais confundidos

De origem incerta, circula a história que conta que as aspas surgiram como forma de representação simbólica dos lábios do autor de determinado texto. Através dos anos, com a evolução das cópias a forma teria passado a vertical, assumindo o aspecto actual. Apesar de não haver certeza da história, há registos que os escribas usavam o nome ou indicações do autor de determinado trecho, ou usavam o texto acompanhado das palavras inquit ou dicit. O primeiro conhecido de aspas de uso tipográfico data de 1516, no livro De Vitis Sophistarum, pág.29 de Flavius Philostratus, impresso por Mathias Schurer de Estrasbourgo, Alsácia. O impressor usa-as no início de cada linha de texto citado e esse modelo foi bastante usado e abusado na época barroca.

o longo dos tempos foram adicionados sinais com propósitos específicos que eram usados pelos tipógrafos nas composições. Porém, as limitações das máquinas de escrever forçaram à obliteração de boa parte deles e criaram outros, com serventias múltiplas, nomeadamente a versão híbrida destinada a ser usada como aspas/apóstrofo/plicas. Com a transição para os teclados actuais, alguns desses sinais foram omitidos das teclas, não obstante existirem na fonte. O desconhecimento da sua existência, bem como a aplicação correcta associada à arbitrariedade de uso e influência de textos de várias origens, fazem com que os textos actuais acumulem diversos erros ortotipográficos.

Contudo, a regra de aplicação é bastante simples: aspas e apóstrofos deverão ser exclusivamente usados para textos e plicas para quantificações e aplicações textuais pontuais.


Aspas
O uso de aspas é tipograficamente pitoresco, pois é dos raros casos onde há aplicações diversas conforme o país de origem. Em Portugal, é habitual usarem-se as aspas curvas1 de origem inglesa, para as citações, estrangeirismos ou expressões com sentido diferente do habitual. As convexidades são viradas para fora na parte de cima da palavra ou expressão que assinalamos. Há ainda versões de aspas inferiores que são caracteres distintos. Em França, são usadas as aspas angulares (também chamadas “aspas francesas” ou “guillemets”2), com os ângulos virados para fora. Na Alemanha também é comum usar estas aspas, mas podem ser aplicadas ao contrário, com os ângulos a apontar para a palavra ou expressão em causa. Devem-se usar as aspas simples apenas quando se cita um trecho dentro de uma citação com aspas duplas.

travessões


Apóstrofos
Os apóstrofos são usados escassamente no português e com atribuições muito objectivas: habitualmente como diacríticos3 nas elisões de letras de conjugações de palavras (p’ra, d’oiro, etc.).

versaletes


Plicas
As plicas são distintas das aspas, apóstrofos e dos sinais de acentuação graves e agudos e apresentam-se nas versões simples, duplas, triplas ou quádruplas4. A sua principal aplicação são as medidas científicas, matemáticas e estatísticas. A variedade de aplicações nesses campo são demasiado técnicas e específicas para aqui detalhar. No uso mais corrente, servem para indicar as unidades imperiais: pé e polegada (por exemplo, 5′ 14″), para designar os arco-minutos e arco-segundos de ângulos (por exemplo, 50º 11′ 15″) e para as unidades de tempo; minuto e segundos (por exemplo, 8′ 25″). Esta notação é aceite apesar de não estar de acordo com o Sistema Internacional de Unidades que indica que a forma correcta deverá ser “min” e “s”, respectivamente. As plicas são também usadas para grafias das transcrições fonéticas, conforme convencionado pelo Alfabeto Fonético Internacional, servindo para assinalar a sílaba tónica. Também são usadas nalgumas línguas e em notações musicais.

sinais matemáticos

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Leia aqui sobre outros erros tipográficos!


Notas

1 há tipos de letras com desenhos onde a curva não existe ou é ambígua, facilitando a sua confusão com as plicas. Também não é correcto usarem-se as aspas curvas e angulares em conjunto.
2 este tipo de aspas foram desenvolvidas em França. Julga-se que o nome francês “guillemets” seria o nome do seu criador, apesar de não haver registo de nenhum fundidor ou criador de letras com tal nome.
3 sinais que mudam a oralidade do texto.
4 caso se aplique e se existirem na fonte.


Referências

https://media.aphelis.net/wp-content/uploads/2012/12/McMURTRIE_1933_Quotation_Mark_light.pdf
https://www.internationalphoneticassociation.org/


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