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A verde rubra

Fonte vs “tipo de letra” e outros termos

Enquanto designer, é para mim surpreendente notar o desconhecimento generalizado no uso de termos tipográficos. Entre eles, surge destacadamente a aplicação de “fonte(s)” como sinónimo de “tipo de letra”, o que é errado e confunde o leitor mais elucidado.

O termo “fonte” surgiu por adaptação do inglês font, originalmente fount, por sua vez adaptado do found1, que provém do latim fundere (fundir). Julga-se que a palavra tenha surgido na Europa por volta de 1688 para designar um conjunto de caracteres de um determinado tipo de letra, produzidos em chumbo com um desenho e tamanho específico. Ou seja; um conjunto completo de caracteres com as mesmas características, que possibilitavam a composição e impressão de um texto de forma harmoniosa e consistente.

Mais tarde, em 1850, foi inventada a primeira fonte bold, criada a partir de um desenho de uma fonte de muito sucesso — a Claredon — desenhada por Robert Besley (1794 – 1876) em 1845. Tendo em consideração que ambas as fontes tinham características físicas similares, mas espessuras (ou “pesos”) diferentes, e que daí para a frente essa fórmula se tornou habitual.

Anos depois, surgiu o termo typeface, que relaciona as diversas fontes com o mesmo desenho. Originalmente escrito type-face, o termo conjuga as palavras type2 (de carácter tipográfico) e face, usado pelos ingleses para designar a superfície do carácter que entrava em contacto com o papel. Ou seja: os caracteres com a mesma “cara”. Como em português não há tradução literal para typeface, usamos em alternativa o termo “tipo de letra” para chamar ao conjunto de fontes com características similares, mas com espessuras/inclinações diferentes. Exemplificando: Arial Regular, Arial Bold e Arial Itálico, são três fontes distintas, cada uma com uma espessura/peso diferente. Todas elas são do mesmo tipo de letra — Arial.

Outro lapso comum é o uso escrito (e oral) de “caracter”, como forma singular de “caracteres”, o que está errado, sendo a designação singular sempre “carácter”.

O termo mais raro, que denota o desconhecimento ou hesitação no seu uso é o “glifo”. Cada fonte digital é constituída por um conjunto de entidades que representam as diversas formas que cada letra, símbolo ou diacrítico3 pode assumir4 — os glifos. Quando os glifos são impressos, quer pela acção física de uma máquina, quer por meios digitais, e se tornam visíveis numa folha ou num ecrã, passam a ser caracteres.


Notas:

1 Os ingleses chamavam a quem se dedicava ao negócio de criar e fundir caracteres type founder e o local onde isso acontecia type foundry ou apenas foundry (fundição). Actualmente a terminologia usada é respectivamente type designer e digital type foundry.
2 O termo type é bastante anterior, data dos primórdios da fundição de caracteres em meados do século XV. Nasce do latim typus (figura, imagem, forma) e do grego typos (pressão, marca, impressão).
3 Sinal gráfico para diferenciar a oralidade das letras; por exemplo, os acentos ou o hífen.
4 Cada letra pode ter mais do que um desenho, por exemplo um “a” pode ter várias formas, cada uma delas é um glifo.


Bibliografia / Referências:


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